12/01/2010 | "O modo com que ele bateu na bola"
``A cidade que eu morava era suja`` ou ``A cidade em que eu morava...``? ``A tese que você concorda é a melhor`` ou ``A tese com que você concorda...``? Neste espaço, já tratei (mais de uma vez) do emprego das preposições (``de``, ``em``, ``com``, ``a``, ``por`` etc.) com o pronome relativo ``que``. Como volta e meia os leitores perguntam sobre isso, parece conveniente tratar dessa questão mais uma vez. Comecemos pela revisão de alguns conceitos básicos. Podemos iniciar pela resposta às duas perguntas que abrem este texto. No padrão culto, as formas adequadas são ``A cidade em que eu morava...`` e ``A tese com que você concorda...``. E por quê? A resposta é simples. Se alguém mora, mora ``em``. A preposição ``em``, regida pelo verbo ``morar``, deve ser posta antes do ``que``. O que temos aí é a junção de duas orações: ``A cidade era suja. Eu morava na/nessa cidade``. O resultado dessa junção é ``A cidade em que eu morava era suja``. Também seria possível trocar a forma ``em que`` por ``na qual``: ``A cidade na qual eu morava...``. No segundo caso, temos a preposição ``com``, regida pelo verbo ``concordar`` (se alguém concorda, concorda ``com``). Também temos aí a junção de duas orações: ``A tese é a melhor. Você concorda com a/essa tese``. O resultado dessa junção é ``A tese com que você concorda é a melhor``. Seria possível trocar ``com que`` por ``com a qual``: ``A tese com a qual você concorda...``. Quero (re)lembrar um caso interessante, que há na bela canção Gostava Tanto de Você, composta por Édson Trindade. Em sua inesquecível gravação, Tim Maia dizia ``...lugar qualquer que não exista o pensamento em você``. Ao gravar a música, Leila Pinheiro acrescentou a preposição ``em``: ``...lugar qualquer em que não exista o pensamento em você``. A construção adotada por Tim Maia é comum na língua oral, no padrão informal da linguagem; a empregada por Leila é a recomendada no padrão formal culto. E de onde vem o ``em`` acrescentado pela querida Leila Pinheiro? Vem do verbo ``existir`` (algo existe ``em`` algum lugar). No lugar de ``em que``, pode-se empregar ``no qual`` (``...lugar qualquer no qual não exista o pensamento em você``). E como fica o caso que está no título deste texto (``O modo com que ele bateu na bola``)? Esse caso é diferente dos que vimos até agora. Não se bate na bola com um modo. Ou será que se bate? Certamente não. Bate-se na bola de um determinado modo, certo? Como se perguntaria algo a respeito do modo de um jogador bater na bola? Poder-se-ia dizer ``De que modo ele bate na bola?`` ou ``Como ele bate na bola?``, certo? Pois bem. Nesses casos, o termo adequado para estabelecer essa relação é ``como``: ``O modo como ele bate na bola é exclusividade dele``. Pelo que se viu, quando se trata de relacionar ideia de modo, a construção ``o modo com que`` não ocorre no padrão formal da língua. Nesse registro, predomina o emprego de ``o modo como``: ``Todos se surpreenderam com o modo como ele resolveu as coisas``. Construções como a que está no título (``O modo com que ele bate na bola...``) talvez resultem da influência da estrutura que se vê em frases como estas: ``Impressiona o rigor com que ele sempre age``; ``Todos destacaram a firmeza com que ela conduziu as tratativas``. Nos dois casos, a forma ``com que`` é correta. Na primeira, é possível pensar que alguém age ``com`` rigor (``Ele age com rigor``). Na segunda, pode-se pensar que alguém conduz as tratativas ``com`` firmeza (``Ela conduziu as tratativas com firmeza``). Mas é bom insistir: se não se age ``com`` determinado modo, não se diz ``o modo com que ele age``. Deve-se preferir a forma ``o modo como ele age``. |