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       Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010
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Autor
Pasquale Cipro Neto

Pasquale Cipro Neto é professor de português desde 1975.
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15/03/2010 | “Somos pessoas afins”


            Vamos para mais uma rodada de respostas aos leitores. A primeira questão vem de uma leitora, que quer saber se existem as formas “a fim” e “afim”. “Em caso positivo, quando uso uma e quando uso a outra?”, pergunta a leitora.

            Existem as duas formas, sim. A palavra “afim” é da mesma família de “afinidade”. Significa “que tem afinidade, semelhança ou parentesco”. Pode-se dizer, por exemplo, que dois casos são afins, que duas personalidades são afins ou que duas pessoas exercem profissões afins. No registro culto, portanto, quem diz ou escreve “Somos pessoas afins” quer dizer que há afinidade entre determinado grupo de pessoas. Na gíria, a frase certamente teria outro sentido.

            A expressão “a fim” costuma integrar as locuções “a fim de” e “a fim de que”: “Iremos até lá a fim de conversar com os interessados”; “Chamei-o a fim de que me explicasse o que tinha ocorrido”. A expressão “a fim de” equivale a “para”; “a fim de que” equivale a “para que”.

            Um leitor quer saber se a forma correta é “doceria”, “doçaria” ou “doceira”. Essa questão talvez seja mais complexa do que parece. Essas duas conhecidas terminações (“-aria” e “-eria”) aparecem em palavras que designam a idéia de lugar. Em “sorveteria”, “lavanderia” e “bilheteria”, por exemplo, temos a terminação “-eria”; em “papelaria”, “peixaria” e “pastelaria”, temos a terminação “-aria”. Contrariando o que se via (e se vê) no uso efetivo da língua de nosso país, muitos dicionários brasileiros só registravam a forma “doçaria”, rara por aqui, mas comuníssima em Portugal. O “Vocabulário Ortográfico”, da Academia Brasileira de Letras, e as últimas edições do “Aurélio” registram as duas formas: “doçaria” e “doceria”. Nas edições anteriores do “Aurélio” e na primeira do “Dicionário Houaiss” (de 2001), só se encontra a forma lusitana (“doçaria”). A propósito, o predomínio das formas terminadas em “-aria” é absoluto em Portugal. Lá, a nossa “loteria”, por exemplo, é “lotaria”.

            Pode usar “doceria” sem medo de errar, caro leitor, mas não confunda “doceria” com “doceira”. “Doceria” é o lugar em que se vendem ou se fabricam doces; “doceira” é a mulher que os faz ou vende.
            A terceira questão de hoje vem de uma leitora, que quer saber se é correta a forma “sobre nova direção”, que ela viu na fachada de uma padaria. Quem escreveu a faixa trocou “sob” por “sobre”. A forma correta é “Sob nova direção”. “Sobre” e “sob” são antônimos, ou seja, têm sentido oposto. No caso de expressões como “sob nova direção”, “sob novo comando”, “sob o domínio dos criminosos” ou “sob a responsabilidade de fulano”, temos a preposição “sob”, empregada para indicar que algo ou alguém está submetido à direção, ao comando, à autoridade de alguém.

            Por fim, um leitor quer saber se a expressão “antes de ontem” é correta, ou se é obrigatório substituí-la por “anteontem”. As formas “anteontem” e “antes de ontem” são absolutamente equivalentes. A escolha fica a critério do freguês. Em “anteontem”, temos o elemento latino “ante”, o mesmo de “antepenúltimo”, “antediluviano”, “ante-sala”, “antegozar”, “antebraço” etc. Esse prefixo não deve ser confundido com “anti”, que vem do grego e se encontra, por exemplo, em “antirreumático” ou “anti-inflamatório” (cuidado com a nova grafia!). “Ante” indica idéia de anterioridade; “anti”, de oposição.

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Autores

Frei Betto
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