09/08/2010 | “Caso nós fôssemos lá...”
Na semana passada, trocamos dois dedos de prosa sobre a forma verbal “vamos”, que, como vimos, é da primeira pessoa do plural de dois tempos: presente do indicativo e presente do subjuntivo. Na verdade, essa flexão do verbo “ir” também integra a conjugação dos imperativos (negativo e afirmativo), mas isso é outra história. No fim do texto, prometi trocar duas palavras sobre a construção “Caso nós fôssemos lá...”. Antes, porém, quero dizer mais uma coisinha sobre a forma “vamos”, do verbo “ir”. O caro leitor sabia que a primeira pessoa do plural do presente do indicativo do verbo “ir” pode ser “vamos” ou “imos”? Sim, nós imos! Alguém teria coragem de usar essa forma hoje? É bem pouco provável. Essa flexão não é mais corrente, seja na língua oral, seja na escrita. As últimas edições do “Aurélio”, no entanto, fazem este registro: “Da forma imos, equivalente de vamos, registre-se este exemplo de autor moderno: ‘Nós imos todas contigo / À busca dele se queres. ’ (João de Deus, Campos de Flores)”. Está feito o registro. É bom lembrar que verbos que apresentam mais de uma forma para um mesmo caso são classificados como abundantes. Posto isso, vamos tratar da construção “Caso nós fôssemos lá”. De início, convém lembrar que “fôssemos” é flexão do pretérito imperfeito do subjuntivo. Como se sabe, o subjuntivo é o modo da dúvida, da possibilidade, da suposição, da probabilidade etc. Se tomássemos como exemplo o verbo “dizer”, nesse mesmo tempo e na mesma pessoa (primeira do plural), teríamos “disséssemos” (“Caso disséssemos...”; “A não ser que disséssemos...”). Se apanhássemos “estudar”, teríamos “estudássemos” (“Caso estudássemos...”; A não ser que estudássemos...”). Que diferença existe entre “Caso digamos...” e “Caso disséssemos...”, ou entre “Caso estudemos...” e “Caso estudássemos...”? Essas quatro formas verbais estão conjugadas no modo subjuntivo, mas não no mesmo tempo. “Digamos” e “estudemos” estão no presente do subjuntivo; “disséssemos” e “estudássemos” estão no pretérito imperfeito do subjuntivo. A diferença, portanto, está no tempo e não no modo. A esta altura, é preciso lembrar a questão da correlação verbal, isto é, a necessidade de sintonizar os tempos verbais. Quando se diz “Haverá reunião se todos forem à escola”, por exemplo, a forma “forem” (do futuro do subjuntivo) correlaciona-se com “haverá” (do futuro do presente do indicativo). A troca de “haverá” por “haveria” (do futuro do pretérito do indicativo) acarretaria a troca de “forem” por “fossem” (do pretérito imperfeito do subjuntivo): “Haveria reunião se todos fossem à escola”. Como se vê, a opção entre “A não ser que estudássemos” e “A não ser que estudemos”, por exemplo, deve levar em conta o restante da frase. Vejamos estes casos: “Ele não conseguirá comer, a não ser que não digamos que é carne de jacaré”; “Ela não conseguiria comer, a não ser que não disséssemos que era carne de jacaré”. Notou? Para que seja possível dizer “Caso nós fôssemos” ou “A não ser que nós fôssemos”, é necessário fazer a correta correlação de “fôssemos” com os demais verbos do período: “Não chegaríamos a tempo, a não ser que fôssemos de avião”. A troca de “chegaríamos” por “chegaremos” exige a substituição de “fôssemos” por “vamos”: “Não chegaremos a tempo, a não ser que vamos de avião”. Bem, como vimos na última semana, é inegável o desconforto causado pelo emprego de “vamos” com valor subjuntivo. Em linguagem familiar, é quase certa a substituição de “a não ser que vamos de avião” por “a não ser que a gente vá de avião”. |